O Anticristo: uma obra-prima visceral e dilacerante
Sem forças para emergir da depressão em que se encontrava, o dinamarquês Lars Von Trier consegue - não sem esforço descomunal - vencer um desafio de raras proporções. Audacioso, enfrenta a controvérsia, a rejeição de alguns, como no recente Festival de Cannes, acometido de certo moralismo e, num cinema sem concessões, aprofunda seu estudo sobre a fronteira entre o humano e o sub-humano, presente em toda a sua obra. Realiza um filme que dificilmente conseguirá ser desvendado em uma única sessão.
Do que são capazes os vivos para superar a convivência com seus mortos?
Desde Europa, Ondas do Destino, passando por Dançando no Escuro (Palma de Ouro em Cannes em 2000), Dogville e Manderlay, o cineasta vem testando os limites entre a generosidade humana e a manifestação do Mal, sem cair na armadilha do maniqueísmo, como lados da mesma moeda.
Em O Anticristo os personagens não tem nome, são Ele, terapeuta e Ela, voltada ao estudo da bruxaria e da violência histórica contra as mulheres. Um casal aniquilado pela dor de um luto demolidor. O que poderia ser um relato sobre as consequências avassaladoras da perda de um filho adquire dimensões inesperadas em que o desejo, a sexualidade, o medo da morte e o poder do amor se fundem com sentimentos de culpa que podem enlouquecer progressivamente e despertar a brutalidade de modo irreversível. Especialmente porque um dos personagens nada tem de inocente.
Numa narrativa dividida em partes (Prólogo, dor, luto, desespero, os três mendigos, epílogo), O Anticristo tem como ponto de partida uma grande perda. Entretanto é através da relação conturbada de um casal já em crise que se desvenda um dos motes do filme: não se pode curar a dor sem entrar em contato com a mesma e enfrentar seus próprios demônios.
Ele (William Dafoe em estupenda atuação) e Ela se isolam numa cabana no meio da Floresta do Éden, é lá que Ela deverá enfrentar seus medos mais profundos e verá se manifestar sem metáforas o Mal que é capaz de causar porque o carrega dentro de si. É lá que também que leva passear o filho. As simbologias propostas por Von Trier tomam vida e “O caos reina”. Os animais em seu estado puro, parindo filhotes ou devorando os mesmos inspiram a personagem Ela a afirmar que a natureza é a Igreja do Demônio e que os pensamentos distorcem a realidade.
Consumida pela culpa, a personagem Ela (uma soberba Charlotte Gainsbourg, merecidamente vencedora do premio de Melhor Atriz em Cannes) confessa que a mente pode realizar o que concebe. É a partir de uma informação avassaladora revelada pela autópsia do filho ao personagem Ele, que Ela é dominada pelo medo do abandono, pela certeza de que sua natureza maléfica foi descoberta pelo marido e inicia um processo de crueldade e perversão.
No paroxismo de sua culpa e de sua maldade já aflorada, a automutilação aparece como que uma expiação. Extirpar a origem do prazer para exorcizar culpas intransponíveis em cenas de grande crueza e poderosa linguagem cinematográfica não significa consolo algum para Ele, já vitimado por terríveis torturas a que Ela o submeteu.
Um cinema sem concessões ao bem-estar do espectador é o que propõe Lars Von Trier. O medo não é perigoso em si, mas sim o contato consigo. A partir do momento em que Ela, orientada por Ele, atravessa uma ponte no meio da floresta, inicia-se o caminho que despertar seus demônios interiores e um jogo arriscado é deflagrado. Sem limites, Ele propõe experiências cada vez mais dolorosas com o intuito de orientar a mulher em direção à libertação do luto. O imponderável se impõe e a cada revelação sobre a maldade da mulher, Ele toma consciência de que não está isento das manifestações de sua própria brutalidade.
Ferido, humilhado, o terapeuta vê suas teorias diluídas, não há mais regras, a dor dilacera, a maldade aflora, o medo da solidão é desesperador, Ela é a personificação de seu objeto de estudo, não há saída. Ao final do filme, os incontáveis corpos femininos, com seus mistérios e segredos, surgem na floresta como ondas num interminável movimento de vida, a mesma vida que continua independente da morte de quem se ama.
Vale lembrar que o prólogo contém sequências de estonteante poder imagético, tornando-se algo antológico e arrebatador, em vertiginoso erotismo. De pungente beleza, a ária de Händel completa o quadro inesquecível que dá todo o sentido ao que vem a seguir.
Tão perturbador quanto o filme é saber que todos temos uma violência latente que pode ser desencadeada em situações-limite. Cabe controlá-la, o que no cinema de Lars Von Trier significaria uma concessão, algo que definitivamente, não seria compatível com o cineasta que já declarou que “gostaria de tentar reinventar o cinema”.
Ficha Técnica:
Distribuição: Califórnia Filmes
Gênero: Drama
Classificação: 18 anos
Duração: 100 min.
Diretor: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Produção: Meta Luise Foldager
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Elenco: William Dafoe , Charlotte Gainsbourg
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